Acompanhe por aqui relatos e experiências registrados durante a produção da exposição.

Amor e respeito em todos os momentos: Belíssimo relato de parto de um bebê com anencefalia.

 

Temos conversado bastante sobre a Natimortalidade esta semana. São sonhos e projetos de vida que terminam tão breve quanto começaram e que deixam marcas profundas. Para a família é um momento delicado onde morte e nascimento, os dois grandes momentos opostos da vida, se encontram. Como é esta intensa experiência? Como acolher esta gestante? O ideal é que possamos propiciar um ambiente respeitoso, que possibilite à todos vivenciar a intensidade de seus sentimentos da maneira que se sentirem melhor. A dor da perda jamais deve vir acompanhada da violência obstétrica. A família presente, é importante? São muitas questões não trabalhadas. E precisamos falar sobre a natimortalidade. Precisamos dar voz à estas famílias e especialmente à estas mulheres.

Aqui no Diário de Bordo da Sentidos do Nascer, trazemos o relato de parto da médica obstetra Quésia Tamara Villamil, mãe de Esther, um bebê com anencefalia que foi amado, gestado e parido com todo o respeito possível. Mesmo sabendo que o bebê teria uma expectativa de vida muito curta Quésia prosseguiu com a gravidez normalmente e da experiência escreveu o livro: “Os últimos quatro meses: diário da gravidez de um bebê com anencefalia” onde conta como foram os dias após o diagnóstico. Escrito de uma maneira espontânea, deixa transparecer todos os sentimentos e conflitos vividos por ela, que em momento algum pensou em interromper a gestação. Que vocês possam se emocionar conosco com esta belíssima história de vida, de respeito, de amor e de despedida.

RELATO DE PARTO DE QUÉSIA E ESTHER

Acordei às 6 horas com a sensação de que estava perdendo líquido. Me levantei rapidamente… “Será que estou com tanto sono que para não acordar meu corpo resolveu perder xixi?”

Estava mesmo cansada. Cinco horas antes tinha assistido ao nascimento do Henrique. Eu estava cansada mas muito feliz. Foi um lindo parto natural na suíte de parto do Hospital da Unimed. Seus pais, Mônica e Paulo, estavam super felizes com tudo que tinha acontecido. E eu e Isabel tínhamos voltado para casa, naquela madrugada, com nossa alma renovada, mas aquele líquido que saída de dentro de mim não era minha bexiga cansada. Me levantei e o líquido continuou saindo. Fiquei parada no banheiro sem conseguir pensar em nada. A Esther tinha 36 semanas e nós havíamos combinado que ela ficaria na sua casinha o tempo que quisesse, eu pedi muito a ela que ficasse até 42 semanas, mas sabíamos que eu não poderia controlar este tempo…

“Quésia, o que aconteceu?” – murmurou Arthur, incomodado com a claridade que vinha do banheiro … “Amor, está saindo um líquido…” “Pode ser xixi” – respondeu. “Hemmerson, estou com incontinência urinária grave.” – mandei para ele uma mensagem de celular – mas a Andréia já chegou e está lavando as últimas roupinhas da Esther”. Imediatamente o telefone tocou: “Por que você gosta de brincar com coisa séria? Eu nunca sei se você está falando a verdade… O que está acontecendo?” — Hemmerson tinha entendido o recado…

“Amor… Você já tomou café?” – Arthur chegou na sala. “Hum-hum… Olha…” – mostrei a ele a mancha molhada na calça, que àquelas alturas já era bem grande… “Bolsa rôta?” – ele me abraçou forte. Sabia que agora a partida da nossa filhinha poderia estar muito próxima, e que estávamos diante do incontrolável. “Hemmerson está vindo…”

Era bolsa rôta. Hemmerson almoçou conosco. Telefonamos aos nossos pais, que moram a 960 e 1400 km de nós, para que viessem.

“Hemmerson, pode ir embora que vou no hospital olhar como está a Mônica e vou fazer as unhas. Não posso segurar minha filha com as unhas assim.” Ele sorriu… “Não demore a me chamar, ok?”

Mônica estava radiante. O Henrique era um fofo de 3700g e mamava sem parar. Arthur foi comigo até a suíte de parto, pegamos nossa banheira inflável e descemos os seis andares do hospital de mãos dadas.

“Nívea? É a Quésia! Será que a Naiara pode ir fazer minhas unhas em casa? É que estou tendo algumas contrações…” Naiara foi e comecei a sentir que não demoraria para o trabalho de parto chegar… “Pode passar Renda com Paris” – consegui relaxar no meu sofá ouvindo as histórias da Naiara, minha manicure. Era um dos momentos prediletos da minha semana…

A Esther mexia sem parar mas o trabalho de parto só engatou à noite. Eu sabia que seria assim. “É quando seu cérebro desliga” – dizia Hemmerson. Entrei embaixo do chuveiro com as luzes apagadas. Eu sempre fazia isto quando precisava me concentrar e relaxar, ou quando estava com crise de enxaqueca. Arthur entrou junto comigo e começou a fazer massagens.

“Amor, esse banheiro é muito pequeno. Quando a Isabel chegar, não vamos caber todos aqui. Na casa nova vamos fazer um box que caiba doula ok?” Sorrimos e nos abraçamos, enquanto as contrações iam ficando mais fortes. Isabel chegou e ficamos caminhando pela casa, na penumbra. Deixamos apenas luzes indiretas e de abajours. Pedi ao Arthur para ligar para o Hemmerson. Senti que estava em fase ativa.

“Quésia, acho que é um bom momento para irmos. Suas contrações estão bem intensas e teremos tranqüilidade para você se instalar em outro ambiente.”

5 centímetros. Hemmerson foi na frente para providenciar a internação. Sálua estava de plantão, uma ajuda providencial para que minha recepção fosse perfeita. Arthur parou o carro na porta do elevador. Desci no sexto andar e conheci a enfermeira Ana Paula. Um anjo que abriu as portas da suíte para nós. As luzes permaneciam apagadas e a Soraia já estava lá. O ambiente continuava pacífico e silencioso, como na minha casa. A Esther ainda mexia sem parar, o que me dava força e alegria.

“Isabel, pode encher a banheira, está ficando difícil…”. Arthur continuou comigo no quarto enquanto Isabel e Soraia enchiam a banheira. O banheiro estava perfeito. Quente, com minhas velinhas espalhadas. Entrar na água morna foi extremamente prazeroso. Ficamos só eu e Arthur lá dentro. Cantamos, choramos e sorrimos. Eu estava muito feliz por estar em trabalho de parto, tinha muito medo de ter que induzir o nascimento de minha filhinha, com 42 semanas. Mas eu também estava triste e confusa com a possibilidade do fim. Eu sabia que com bolsa rôta as chances de ela nascer com vida eram menores. E ainda sabia que a chance de complicações na saída eram maiores, no nascimento de bebês como a Esther.

Em algum momento esses medos passaram forte pelos meus sentimentos, e coloquei os dedos no canal do parto. A apresentação estava alta, e eu não conseguia perceber o que se apresentava.

“Quésia, cai na real! Seu parto é um parto distócico! Vai doer muito! Você não precisa sofrer, o expulsivo vai demorar muito…” — pensei… mas saí da banheira determinada: “Hemmerson, chama o Niwton.” 8 centímetros. Para mim não importava. Tudo estava muito bem, muito tranqüilo até ali. Eu não queria estar desconfortável na chegada da minha filhinha, que ainda se mexia muito. E a dor estava me deprimindo.

Niwton foi fantástico. Passou um cateter de peridural na penumbra, em uma grávida que gritava e se mexia sem parar. Mas eu sabia que ele era assim tão bom. Por isto estava ali. Me rendi ao cansaço e dormi. Acho que todos fizeram o mesmo. E foram acordados com meus gritos de dor quando se passou o efeito da dose do anestésico…

“10 centímetros, Quésia, e ainda tem uma bolsa.” Hemmerson já tinha me dito isto desde o começo, que era uma rotura alta, mas só naquele momento eu consegui perceber a bénção que o Senhor tinha me dado: Minha filha ainda estava se mexendo, a bolsa estava íntegra e só faltava o expulsivo! “Obrigada, Senhor, pela delicadeza dos dedos do Hemmerson e pela resistência dessa parte da bolsa que protege a cabecinha da Esther” – orei em meu coração.

Parecia que não havia mais nada da analgesia. Senti uma dor muito forte em um ponto específico da pelve e gritei muito no expulsivo. Gritar me ajudava a vencer o medo. O medo da vida, do encontro com ela, do encontro com a realidade da doença dela, o medo da morte…

Ela veio de face. Agradeço ao Senhor também por isto. A bolsa rompeu só no final do expulsivo, que foi rápido, segundo eles. Para mim foi uma eternidade… Fizeram tudo exatamente como no nosso plano de parto. Foi tudo exatamente como eu e Arthur sonhamos e pedimos ao Senhor durante a gestação. Quando a Esther saiu, Soraia a secou, colocou a touquinha e me entregou minha linda filhinha.

Ela estava viva!!! Espirrou algumas vezes e segurou meu dedo firmemente. Segurei o cordão, que pulsava a mais de 100 batimentos. Ela não estava bradicárdica e meu medo foi diminuindo. Pedi para minha família entrar. Todos entraram, alguns sorrindo, alguns chorando. Falei que podiam fotografá-la, que ela estava viva. Senti a placenta saindo. Hemmerson pediu para ficar só minha mãe e minha irmã.

“Arthur, quer cortar o cordão?” – alguém perguntou. Segurei no cordão, que já não pulsava. E ela ainda estava apertando meu dedo, ainda estava ali. “Pode cortar amor, já parou de pulsar”. Arthur cortou.

E ela se foi.

Ela se foi no mesmo momento em que ele cortou o cordão.

O pior momento das nossas vidas.

Ela soltou meu dedo. E eu chorei alto. Era a pior dor que eu tinha sentido nas últimas horas.

Choramos todos naquela suíte de parto. Perdemos nossa filhinha, perdemos nossa Esther.

Foi tão rápido! Tão intenso! Tão maravilhoso!

Soraia colocou seu mini-estetoscópio no tórax da Esther e confirmou: “Ela não está mais viva, ela partiu”. Disse que foram 40 minutos de vida. Mas para mim foram 40 segundos. O que eu fiz naqueles 40 minutos, meu Deus? Onde eu estava?

Lembro que quando meus irmãos entraram na suíte eu levantei ela e mostrei todo o seu corpinho para eles e logo a coloquei em contato com minha pele novamente, para que não perdesse calor. Lembro do Arthur chorando e a beijando. Lembro dos sorrisos dele cada vez que ela espirrou. E de ouvir ele dizer várias vezes: “Ela é linda, meu bem! Ela é perfeita!”

Ficamos ali ainda algum tempo, em silêncio, curtindo cada parte do corpinho dela. Nossa família entrou novamente e oramos juntos, de mãos dadas, entregando a Esther ao Senhor.

“O SENHOR nos deu, e o SENHOR nos tomou: bendito seja o nome do SENHOR.”– Arthur susurrou o texto de Jó 1:21b em meus ouvidos.

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Me lembrei do dia dois de abril, quando ficamos sabendo que nossa filhinha na verdade não era nossa. Que teríamos que devolvê-la ao Criador em breve. E que Ele nos falou claramente aquele texto enquanto olhávamos para a imagem na tela do ultrassom. Agradeci ao Senhor por tudo. Por aquele parto maravilhoso. Pelo Hospital Mater Dei, pela suíte de parto, pela equipe humanizada que nos atendeu e nos respeitou, pelo Núcleo Bem Nascer…

Agradecemos, ainda, por cada um que ajudou a trasformar nosso pranto em alegria:

- Hemmerson Magioni, obstetra, que celebrou cada minuto da vida da Esther, antes e após o diagnóstico.

- Júlio Couto, ultrassonografista, que continuou sendo médico mesmo sem possibilidade terapêutica para nosso feto.

- Soraia Nogueira, pediatra, que nos acolheu e cuidou da nossa filhinha como se ela fosse ser sua paciente por muitos e muitos anos…

- Niwton Toledo, anestesiologista, que ficou de plantão fora da suíte aguardando a possibilidade de ser convidado a participar da nossa história.

- Isabel Cristina, doula, que com suas mãos conseguiu diminuir nossa dor e nosso medo.

- Jane e Oswaldo Marra, fotógrafos, que choraram e oraram conosco, trabalhando com amor e profissionalismo para que a história da Esther se eternizasse.

- Sandro Chaves e Márcia Salvador, diretores do Hospital Mater Dei, que receberam com carinho nosso plano de parto e abriram as portas do hospital para nossa família, permitindo que o nascimento e morte da Esther fossem tratados com respeito e dignidade.

- Nossa família querida: pais, irmãos, cunhadas, primos, tios… que viveram ao nosso lado todos os momentos, felizes e tristes, da história da Esther.

  1. PAULINE FRAGA LIGNANI disse:

    Simplesmente emocionante. Não sou de chorar, mas esta história me tocou profundamente. Tenho uma sobrinha com microcefalia e devido á isso, sérios problemas neurológicos que a impedem de falar, andar , enxergar, mas como essa mãe , minha irmã em nenhum momento reclamou, praguejou ou desistiu de lutar. Belíssimo depoimento.

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